A ilusão da eficiência: por que o excesso de IAs virou o novo gargalo do Direito

Com o excesso de ferramentas de IA, o advogado vira o maestro de uma orquestra que não toca a mesma música, e o tempo que deveria ser dedicado à estratégia se perde na costura manual entre sistemas. O principal obstáculo deixou de ser o tempo perdido em trabalho operacional; o gargalo agora é a fragmentação. 

Rafael Grimaldi (*) 

Participo de feiras de inovação jurídica no Brasil desde 2022. Já vi esse mercado passar por pelo menos quatro fases distintas, e o cenário de 2026 é, sem exagero, o mais denso de todos. Nunca existiu tanta solução tecnológica com Inteligência Artificial disponível para advogados, escritórios e departamentos.

E é justamente por isso que precisamos conversar sobre o que ninguém está dizendo em voz alta: mais soluções não significam menos problemas. Em muitos casos, significam exatamente o oposto.

Fragmentação virou o novo custo do escritório

A reclamação que mais escuto de advogadas e advogados hoje não é a falta de ferramentas, mas o excesso delas. Cada fornecedor resolve um pedaço do fluxo. Pesquisa de jurisprudência em uma aba, análise de documentos em outra, uma IA genérica aberta em paralelo e o acervo da banca jogado em pastas de um servidor.

O profissional vira o maestro de uma orquestra que não toca a mesma música, e o tempo que deveria ser dedicado à estratégia se perde na costura manual entre sistemas.

O que isso significa na prática? Que o principal obstáculo deixou de ser o tempo perdido em trabalho operacional; o gargalo agora é a fragmentação.

Um estudo do Thomson Reuters Institute mostrou, em 2024, que profissionais do Direito perdem em média 240 horas por ano com tarefas repetitivas que poderiam ser automatizadas. O dado é conhecido. O que se discute pouco é que parte significativa dessas horas não é mais gasta na atividade em si, mas no atrito entre as ferramentas que deveriam resolvê-la.

Isso sem contar o risco que boa parte do mercado ainda corre ao utilizar chats generalistas — ou seja, abertos ao público. Eles parecem efetivos na superfície, mas operam sem especialização jurídica, sem controle contra alucinações e sem barreiras adequadas para a proteção de dados sigilosos.

É o que ilustra a pesquisa Future Ready Lawyer de 2024, que apontou que 73% dos líderes jurídicos no mundo veem o aumento do volume e da complexidade de dados como o principal desafio do setor.

E aqui mora o risco real: quando uma IA generalista é alimentada com peças, contratos ou estratégias de litígio, o que está em jogo não é apenas a qualidade da resposta. É o privilégio legal, a confidencialidade e a exposição regulatória diante da LGPD.

Não é teoria. O caso Mata vs. Avianca, nos Estados Unidos, em 2023, virou referência mundial porque uma IA generalista citou jurisprudência inexistente em uma peça protocolada. O perigo não é percebido até se tornar um problema real. E, quando se torna, dificilmente é reversível.

O que vem depois: do hype para a infraestrutura

Estamos no segundo capítulo de uma longa história. O primeiro foi convencer o mercado de que a tecnologia não era inimiga da advocacia. Essa etapa está se encerrando. O próximo passo, que começa agora, é sobre três pilares concretos:

  • Qualidade verificável: com IA treinada em base jurídica real e auditável;
  • Governança de dados: com infraestrutura que respeite o sigilo profissional;
  • Integração de fluxo: em ambientes que reduzam o número de abas abertas em vez de aumentá-lo.

A adoção tecnológica no Direito é um caminho sem volta. Não é mais uma discussão de preferência, é uma questão de competitividade e, cada vez mais, de conformidade.

Mas isso não responde à pergunta mais importante: se a tecnologia hoje pode dar conta da camada operacional com precisão, o que vale mais para o futuro da sua prática jurídica? As horas braçais que você ainda gasta procurando informação ou a capacidade estratégica que pode ser construída em cima do tempo recuperado?

A resposta para essa pergunta vai definir quem liderará o mercado jurídico nos próximos cinco anos. E ela precisa ser respondida agora.

(*) Co-fundador da legaltech Inspira  (crédito da foto: Verena Baptista)

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