As áreas tributária, fiscal e contábil concentram algumas das maiores oportunidades para startups jurídicas, com a IA podendo ampliar análises e dar escala, sem substituir a experiência humana nas decisões complexas
Priscila de Oliveira Spadinger (*)
Durante anos, advogados escolheram suas especialidades com base principalmente na afinidade com determinada área. Poucos consideraram, nessa decisão, o potencial de inovação tecnológica. Mas uma nova realidade já está em curso e começa a gerar retornos significativos para quem percebeu esse movimento mais cedo. Não se trata de uma promessa de futuro, mas de uma transformação que acontece agora, especialmente nas áreas tributária, fiscal e contábil.
Existe uma lógica simples que domina qualquer grande negócio de tecnologia: quanto mais complexo é o problema, maior o retorno financeiro para quem o simplifica. E qual área do Direito brasileiro concentra mais complexidade, volume de normas, obrigações acessórias, variação de regimes e risco para o cliente? A resposta é fácil. O sistema tributário brasileiro é, segundo o próprio Banco Mundial, o mais complexo do planeta.
Uma empresa de médio porte chega a gastar mais de 1.500 horas por ano apenas cumprindo obrigações fiscais. São mais de 5.000 normas tributárias editadas por ano. E isso sem contar a intersecção diária com o contábil, o fiscal e o societário.
Para o advogado, isso é uma demanda constante. Para o empreendedor de tecnologia que entende o problema de dentro, essa é uma das maiores oportunidades de negócio que o Brasil já gerou. E conhecimento profundo vale mais do que qualquer algoritmo. Legaltechs não nascem de um programador que aprendeu direito superficialmente. Ela nasce de juristas que entenderam que o conhecimento deles tem valor exponencial quando encontra a tecnologia certa.
Dores reais no mercado
Não é por acaso que a Aleve nasceu para criar soluções de inovação e tecnologia para a área do Direito, via legaltechs. A gestora surgiu da inquietação de quem via dores reais no mercado todo dia e entendeu que tecnologia era a forma mais escalável de resolver essas dores.
Hoje, com mais de 15 legaltechs no portfólio, valuation consolidado de quase R$ 200 milhões e mais de 100 investidores, a Aleve se consolida como a única Venture Builder dedicada exclusivamente ao setor jurídico no Brasil. E o que nos move é justamente essa intersecção: domínio jurídico profundo encontrando inovação.
Toda área do Direito tem seu potencial de inovação. Trabalhista, ambiental, imobiliário, previdenciário, todos têm dores reais esperando por soluções. Mas o tributário, especificamente, reúne quatro características que o colocam em posição única, sendo a primeira volume e recorrência. Todo CNPJ ativo no Brasil gera obrigações tributárias todos os meses e não existe cliente tributário que um dia vai parar de precisar de suporte.
Outra característica é o padrão ocultado na complexidade: por trás do caos normativo existem estruturas lógicas e repetitivas. É exatamente esse tipo de estrutura que algoritmos e IA conseguem aprender e processar com a velocidade que nenhum time humano consegue acompanhar.
Economia mensurável
Há, também, o impacto direto no resultado do cliente: uma solução que reduz risco fiscal, identifica crédito tributário ou acelera o compliance gera economia mensurável. O cliente vê o valor claramente, o que torna a venda mais fácil e a retenção mais natural.
E, por fim, a intersecção com o contábil e o fiscal: não é possível tratar tributário de forma isolada. Quem domina essa intersecção é capaz de construir soluções verdadeiramente integradas, que atendem o cliente na totalidade da sua dor.
Para quem atua ou investe nas áreas tributária, fiscal e contábil, a pergunta que se coloca agora é como esse conhecimento pode se transformar em tecnologia. A máquina nunca vai substituir o feeling humano: ela pode ampliar a capacidade de análise, organizar dados e dar escala, mas decisões complexas continuarão dependendo da experiência e da percepção de quem conhece o campo.
(*) CEO da Aleve LegalTech Ventures, gestora de startups jurídicas que lidera iniciativas de inovação e acompanha de perto a jornada de dezenas de legaltechs brasileiras.
