Governança avança, mas tecnologia ainda limita a evolução da auditoria interna nas empresas

Paulo Roberto Gomes, Diretor-Geral do IIA Brasil

Pesquisa do IIA Brasil e da KPMG mostra crescimento das práticas de qualidade e maior alinhamento estratégico da função de auditoria, enquanto uso de ferramentas digitais, monitoramento contínuo e qualificação das equipes ainda desafia as organizações

Fraudes corporativas, ataques cibernéticos, mudanças regulatórias e um ambiente de negócios cada vez mais complexo vêm ampliando o papel da auditoria interna nas organizações. Mais do que verificar controles, a função passou a apoiar decisões estratégicas e a antecipar riscos. Essa transformação, porém, ainda acontece em velocidades diferentes entre as empresas brasileiras.

Levantamento feito pelo Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil) e pela KPMG mostra importantes avanços na adoção de boas práticas de governança e qualidade. Hoje, 46% das áreas de auditoria interna afirmam cumprir as normas internacionais da profissão e já passaram por avaliação externa de qualidade, índice superior aos 35% registrados na edição anterior.

Porém, ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia que a transformação operacional ainda não acompanha esse movimento: 45% das organizações não utilizam nenhum software de Governança, Riscos e Compliance (GRC) para apoiar suas atividades e 38% ainda não implementaram processos de auditoria contínua, considerados essenciais para o monitoramento permanente de riscos e controles.

O diagnóstico também revela que a maturidade da auditoria interna no Brasil segue em um momento de transição. Vinte e oito por cento das organizações ainda estão classificadas no nível “Fraco”, enquanto 22% alcançaram o estágio “Integrado” e 20% o nível “Avançado”, em que a auditoria atua de forma conectada à estratégia do negócio, à gestão de riscos e ao processo de tomada de decisão.

Para os especialistas, os resultados demonstram que muitas empresas já estruturaram processos e fortaleceram sua governança, mas ainda precisam desenvolver capacidades analíticas e tecnológicas para transformar informações em decisões mais rápidas e efetivas.

Outro desafio está relacionado às pessoas. Embora o percentual de empresas sem um plano formal de desenvolvimento para seus auditores tenha caído de 42% para 27%, a pesquisa mostra que 71% das organizações ainda não possuem profissionais com a certificação internacional Certified Internal Auditor (CIA), uma das principais credenciais da profissão.

O resultado indica que a evolução da área ainda depende de investimentos mais consistentes em capacitação, especialização e desenvolvimento de competências voltadas ao uso de dados, tecnologia e riscos emergentes.

Capacidade de resposta das empresas

A pesquisa também identificou avanços na capacidade de resposta das empresas às recomendações feitas pela auditoria interna. O percentual de organizações que implementam planos de ação em até 30 dias chegou a 44%, uma evolução significativa em relação à edição anterior.

Apesar disso, 55% das empresas ainda não utilizam a implementação dessas recomendações como indicador de desempenho para avaliação de seus executivos, o que limita a consolidação de uma cultura de accountability e melhoria contínua.

“Quando falamos em maturidade da auditoria interna, não estamos falando apenas de processos ou conformidade. Estamos falando da capacidade de ajudar a empresa a tomar melhores decisões, antecipar riscos e responder mais rapidamente às mudanças do mercado”, situa Paulo Roberto Gomes, Diretor-Geral do IIA Brasil.

“Os resultados mostram que avançamos nesse caminho, mas também deixam claro que ainda existe um espaço importante para evoluir, principalmente no uso de tecnologia e no desenvolvimento das pessoas”, acrescenta ele.

Realizada entre novembro de 2025 e março de 2026, a quarta edição da pesquisa reuniu o maior número de participantes desde o início da série histórica. O estudo contou com profissionais de diferentes níveis hierárquicos e segmentos da economia, oferecendo um retrato abrangente sobre o estágio de maturidade da auditoria interna nas organizações brasileiras e os desafios para sua evolução nos próximos anos.

 

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