Além das possíveis implicações financeiras e jurídicas decorrentes das investigações, os casos envolvendo a Ultrafarma e a Fast Shop reforçaram a percepção de que vulnerabilidades e riscos de irregularidades podem surgir em áreas inesperadas de uma organização. Identificá-los demanda atenção além do óbvio, agilidade na interpretação de dados e prontidão para agir.
Alexandre Pegoraro (*)
A realização da Operação Ícaro, feita pelo Ministério Público de São Paulo, revelou um esquema de pagamento de propina a auditores fiscais tributários. O caso teve grande repercussão, especialmente pelo impacto direto na reputação de marcas como a gigante rede de farmácias Ultrafarma e a Fast Shop, uma das maiores varejistas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos do Brasil. Além dos prejuízos à imagem dessas corporações, o episódio abalou a credibilidade dos principais executivos das organizações. O que trouxe à tona a necessidade de concentrar esforços no aperfeiçoamento de metodologias para mapear os riscos de corrupção.
Ainda que haja um grande foco em instituições públicas, é importante ressaltar que a iniciativa privada também vive sob pressão constante de normas, auditorias e expectativas sociais.
Para estar em conformidade com essas exigências, o mapeamento de riscos de corrupção oferece uma leitura clara de pontos como a concentração de poder, a ausência de contrapesos e as relações contratuais com baixa rastreabilidade para viabilizar a tomada de decisões que evitam exposição jurídica e desgastes institucionais.
Informações preliminares indicam que, no caso da Ultrafarma, há registros de uso da identidade eletrônica da empresa para realização de pedidos que aparentavam ter sido feitos pela própria companhia, prática atribuída a auditores investigados. Já na Fast Shop, as apurações buscam esclarecer se houve prestação de assessoria tributária irregular e eventual atuação conjunta entre auditores e executivos da organização, apontando possíveis falhas e irregularidades no processo.
Identificação de indícios
A função do mapeamento de riscos de corrupção é justamente esta: revisar constantemente fluxos, criar critérios objetivos de aceitação e direcionar ferramentas de compliance. Assim, é possível identificar indícios desse tipo de conduta e atuar para que eles sejam interrompidos.
A proposta central consiste em encontrar as áreas com maior propensão a desvios e entender as prioridades como pontos estratégicos. O cruzamento de variáveis como impacto, frequência e ausência de controles permite organizar essas informações em uma matriz.
A partir do diagnóstico, é possível direcionar ações corretivas, investimentos em tecnologia, ajustes de governança e treinamentos internos. Além disso, o mapeamento serve como base para decisões operacionais que envolvem terceiros, concessões, patrocínios ou licitações. Agindo com base nesse instrumento, a organização elevará o grau de previsibilidade, o que fortalece o planejamento e a imagem institucional.
A aplicação do mapeamento começa com a investigação interna dos fluxos mais sensíveis considerando que setores como compras, contratos, controladoria e jurídico costumam reunir maiores características de exposição, tanto pela autonomia quanto pela complexidade das decisões.
Em seguida, os dados coletados alimentam matrizes que classificam os riscos conforme impacto e frequência. A partir disso, são definidos planos de ação, como revisão de procedimentos, digitalização de processos e as exigências de verificação prévia antes da assinatura de novos contratos.
Plataformas especializadas
O uso de plataformas especializadas amplia a profundidade e acelera o tempo de resposta. As principais soluções nesse sentido chegam a realizar cruzamentos com mais de 3.500 fontes nacionais e internacionais, em fontes oficiais como tribunais estaduais e federais, diários oficiais, órgãos como COAF, CGU, TCU, Ministérios Públicos, agências reguladoras, entidades internacionais e serviços de análise de crédito.
Além disso, elas realizam a validação de vínculos societários, participação em processos por improbidade, condenações cíveis e criminais, exposição política e envolvimento com pessoas físicas ou jurídicas sancionadas.
A aplicação de metodologias de mapeamento de riscos de corrupção aliadas a soluções tecnológicas reduz custos com retrabalho, amplia a previsibilidade de processos e fortalece a governança. A partir do momento em que os riscos são organizados por criticidade, a gestão tem mais controle sobre sua estrutura de exposição. Isso permite respostas mais rápidas, redução de passivos e maior transparência.
Além das possíveis implicações financeiras e jurídicas decorrentes das investigações, os casos envolvendo a Ultrafarma e a Fast Shop reforçaram a percepção de que vulnerabilidades e riscos de irregularidades podem surgir em áreas inesperadas de uma organização. Identificá-los demanda atenção além do óbvio, agilidade na interpretação de dados e prontidão para agir.
(*) CEO da plataforma de compliance Kronoos
