Bruno Santos, CRO da Área de Gestão de Riscos com Terceiros da Bernhoeft
Gestão estruturada de terceiros, rastreabilidade da cadeia e uso de tecnologia têm se consolidado como estratégias essenciais para prevenir violações trabalhistas, reduzir riscos jurídicos e proteger a reputação das empresas do setor
O agronegócio brasileiro segue sendo um dos principais motores da economia nacional e desempenhou papel central no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025. Segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor registrou crescimento de 11,7%, sendo responsável por cerca de um terço de toda a expansão econômica do país.
Ao mesmo tempo em que confirma sua relevância para o desempenho econômico do Brasil e para a segurança alimentar global, o avanço do setor também expõe desafios estruturais relacionados à governança das cadeias produtivas.
Operações em áreas remotas, múltiplos níveis de fornecedores e a forte dependência de mão de obra temporária durante períodos de safra tornam o monitoramento das condições de trabalho um ponto sensível para empresas do agro.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego indicam que, em 2025, 2.772 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão no Brasil, resultado de 1.594 operações de fiscalização realizadas ao longo do ano. A maior parte dos casos ocorreu em atividades rurais, cenário que reforça a necessidade de maior controle e transparência nas cadeias produtivas.
Para Bruno Santos, CRO da Área de Gestão de Riscos com Terceiros da Bernhoeft, consultoria nacional especializada em governança e compliance na cadeia de fornecedores, o risco nem sempre está diretamente ligado ao processo produtivo, mas muitas vezes surge em etapas indiretas da operação.
Intensificação de riscos
“Os riscos tendem a se intensificar em etapas que combinam alta demanda de mão de obra braçal e prazos reduzidos, como manejo e colheita, especialmente quando há pressão por produtividade e contratação de intermediários. No entanto, muitas das violações mais graves se concentram na logística de suporte, como transporte inadequado e condições precárias de alojamento em frentes de trabalho distantes dos centros urbanos, aspectos que nem sempre estão sob monitoramento direto da empresa contratante”, afirma.
Outro fator que amplia a exposição das empresas é a falta de visibilidade sobre fornecedores indiretos. Em cadeias produtivas extensas, o chamado “fornecedor do fornecedor” pode representar um ponto crítico de risco jurídico e reputacional, especialmente quando não há rastreabilidade sobre as práticas trabalhistas ao longo da cadeia.
Nesse cenário, empresas podem enfrentar consequências que vão desde responsabilização solidária em processos trabalhistas até inclusão em cadastros restritivos, perda de contratos e danos reputacionais significativos. A pressão também vem do mercado internacional, onde investidores e compradores têm exigido cada vez mais comprovação de due diligence em direitos humanos e governança com práticas Environmental, Social and Governance (ESG).
Diante desse contexto, a Gestão de Riscos com Terceiros tem ganhado espaço como ferramenta estratégica para identificar, classificar e monitorar riscos trabalhistas ao longo da cadeia produtiva. Entre as práticas mais adotadas estão a segmentação de fornecedores por grau de criticidade, due diligence trabalhista e fiscal ampliada, verificação da origem da mão de obra, análise de modelos de subcontratação e auditorias de campo voltadas às condições reais de trabalho.
Monitoramento de indicadores
O monitoramento contínuo também inclui indicadores como regularidade de FGTS e INSS, programas de saúde ocupacional e análise das condições de transporte e alojamento dos trabalhadores.
“Quando a empresa estrutura um programa contínuo, que começa na homologação do fornecedor, passa pela análise da cadeia de subcontratação e inclui o monitoramento mensal de encargos e obrigações, ela deixa de agir apenas após a fiscalização e passa a identificar sinais de alerta antes que o risco se transforme em passivo legal ou crise reputacional”, ressalta Santos.
Além de contratos com cláusulas claras de responsabilidade social e códigos de conduta para fornecedores, especialistas apontam que o uso de tecnologia e o cruzamento de dados públicos têm se tornado aliados importantes para ampliar a transparência e reduzir pontos cegos na cadeia produtiva.
“Ao estruturar processos contínuos e integrados, o agronegócio fortalece sua capacidade de prevenir violações trabalhistas, reduz vulnerabilidades jurídicas e comerciais e consolida uma estratégia alinhada às exigências de mercado, demonstrando que competitividade, conformidade legal e responsabilidade social precisam caminhar juntas em cada elo da cadeia produtiva”, finaliza o especialista.
