As legaltechs não apenas acompanham, mas impulsionam a evolução do Direito. Sua adoção deixou de ser meramente um diferencial competitivo para se tornar uma condição essencial de excelência, eficiência operacional e visão estratégica de futuro.
Thaís Franciulli Ferreira e Raphael Pedro Guglielmo Donadio Henrique (*)
Há anos, a tecnologia vem sendo progressivamente incorporada ao universo jurídico, transformando significativamente a prática do Direito. O que começou com iniciativas pontuais, como digitalização de documentos e controle de prazos por planilhas, evoluiu para um ecossistema robusto de soluções inteligentes, conhecidas como legaltechs, especializadas na automação, análise estatística e integração sistêmica das rotinas jurídicas.
No Brasil, desde 2017, com o surgimento da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), o número dessas startups cresceu mais de 300%, demonstrando claramente o amadurecimento da inovação tecnológica no setor. Legaltechs são empresas dedicadas ao desenvolvimento de ferramentas tecnológicas específicas para a prática jurídica, possibilitando aos escritórios e departamentos jurídicos uma atuação mais estratégica e eficiente.
No contexto do contencioso jurídico, essas soluções tecnológicas têm se mostrado essenciais ao permitirem reorganizar fluxos de trabalho, automatizar tarefas repetitivas, garantir maior controle sobre prazos processuais e reduzir significativamente falhas operacionais. Como consequência direta, profissionais podem focar esforços nas análises jurídicas mais complexas e estratégicas.
As legaltechs estão segmentadas em diferentes categorias, atendendo diversas necessidades dentro do universo jurídico. Entre essas categorias estão a automação e leitura de documentos e processos, gestão jurídica e financeira, jurimetria e análise preditiva, plataformas de resolução de conflitos e compliance regulatório. Cada uma dessas categorias contribui para aumentar a eficiência e precisão dos serviços jurídicos prestados.
Este cenário está diretamente relacionado ao crescimento do Legal Operations, uma metodologia que utiliza princípios empresariais na gestão jurídica. Essa abordagem propõe uma separação clara entre atividades técnicas e operacionais, adoção de indicadores objetivos de desempenho, rigorosa padronização de processos e uso intensivo de tecnologia. As legaltechs são elementos fundamentais dessa nova realidade, garantindo aos escritórios maior previsibilidade, controle efetivo sobre a carteira de processos e eficiência na entrega dos serviços.
Aspectos regulatórios
Todavia, a implementação dessas tecnologias exige atenção em relação à segurança da informação, adequação às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e treinamento constante das equipes jurídicas e operacionais. Esses aspectos regulatórios representam desafios reais, especialmente em contextos de Inteligência Artificial e automação avançada.
Contudo, os benefícios obtidos em termos de produtividade, confiabilidade dos dados e escalabilidade superam amplamente os desafios e justificam plenamente os investimentos realizados. É essencial destacar também que as legaltechs complementam, mas não substituem o trabalho humano, enriquecendo a atuação dos profissionais ao possibilitar maior foco em tarefas que exigem raciocínio crítico e análise jurídica especializada.
Portanto, as legaltechs não apenas acompanham, mas impulsionam a evolução do Direito. No universo da advocacia, sua adoção deixou de ser meramente um diferencial competitivo para se tornar uma condição essencial de excelência, eficiência operacional e visão estratégica de futuro.

(*) Thaís Franciulli Ferreira é advogada e sócia da Nelson Wilians Advogados. Raphael Pedro Guglielmo Donadio Henrique é coordenador de Controladoria Jurídica no mesmo escritório.
