Adoção de IA avança mais rápido que a governança: o risco já está nos escritórios de advocacia

O estudo Future of Professionals 2026, realizado pela Thomson Reuters na América Latina, aponta um avanço da shadow AI no meio jurídico: 34% dos advogados usam ferramentas não aprovadas, com riscos a dados confidenciais e impactos na retenção de talentos e na eficiência cobrada pelos clientes

Rodrigo Hermida (*)

Na América Latina, a Inteligência Artificial (IA) não pediu permissão para entrar nos escritórios de advocacia: 84% dos profissionais jurídicos da região entrevistados para o relatório Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters, afirmam usar IA toda semana.

No entanto, apenas 48% afirmam ter acesso a ferramentas desenhadas especificamente para o seu trabalho, e 34% operam com ferramentas que suas organizações não aprovaram.

Por trás desses números aparece uma lacuna cada vez mais evidente entre a velocidade de adoção e a velocidade de resposta das organizações. E, quando isso acontece em uma profissão construída sobre a responsabilidade, o risco não é abstrato.

Por isso, a pergunta que o relatório deixa em aberto nesta edição é se os escritórios de advocacia vão liderar o uso de IA. Ou se vão descobrir tarde demais que aquilo que não conseguiram controlar já está custando clientes, reputação e talento.

Quando a estratégia não chega ao trabalho real, surge a shadow AI

O uso de IA não autorizada pelas organizações tem nome: shadow AI. E entendê-lo como um problema de conformidade é o diagnóstico errado. A shadow AI é uma consequência direta da omissão, e se reflete em 27% dos profissionais jurídicos entrevistados em nossa região, que relatam uma lacuna entre a estratégia de IA de seus escritórios e sua execução no dia a dia.

Ou seja, a estratégia existe no papel, mas não chega aos processos, não transforma os fluxos de trabalho, não muda como as decisões operacionais são tomadas no cotidiano. E, diante desse vazio, o comportamento dos profissionais ao utilizar ferramentas, em vez de desaparecer, desloca-se para as que não são adequadas.

O que torna isso especialmente crítico no Direito é a natureza da profissão. Um advogado que opera com IA genérica e não aprovada por sua organização corre o risco de citar jurisprudência inexistente com seu nome na petição, ou expor informações confidenciais de um cliente em sistemas sem nenhum nível de proteção de dados.

No Direito, onde cada resposta precisa poder ser explicada, rastreada até sua fonte e defendida, a responsabilidade continua sendo do profissional, e uma IA generalista não foi desenhada para prestar contas a ninguém. Quando estar “quase certo” não é suficiente, o risco de operar com ferramentas que não atendem a esse padrão é reputacional.

O talento já está tomando decisões

Desse descompasso entre estratégia e execução surge uma segunda consequência, menos visível mas igualmente determinante. 87% dos profissionais jurídicos entrevistados na América Latina reconhecem que existe uma distância real entre o que esperam da IA e o que efetivamente obtêm. E essa distância já se traduz em decisões concretas: 26% dizem estar considerando deixar sua organização nos próximos dois anos se essa lacuna não for reduzida.

E o que agrava ainda mais esse problema é que o maior risco de fuga está entre os profissionais de carreira intermediária: os que sustentam a operação, gerenciam o relacionamento com o cliente, mantêm o negócio funcionando dia após dia. E são os mais difíceis e custosos de substituir.

Em um mercado onde o talento especializado é escasso, não oferecer as ferramentas adequadas deixa de ser uma omissão operacional e se torna uma decisão com consequências diretas sobre a sustentabilidade do negócio.

Enquanto isso, o cliente já mudou o padrão de referência

Esse mesmo profissional que avalia se permanece ou não na organização é quem gerencia o relacionamento com o cliente. E o cliente, por sua vez, já experimentou em algum lugar o que a IA torna possível, como a análise de milhares de documentos em minutos ou tempos de resposta que antes eram impossíveis. Quando isso acontece, o padrão de referência muda para todos.

Longe dos tempos em que a conversa sobre IA passava pelas expectativas e pela experimentação, hoje podemos dizer que os escritórios de advocacia já estão gerando valor internamente, mas não necessariamente valor traduzido naquilo que os clientes experimentam como serviço.

A eficiência melhorou. A proposta de valor ao cliente, não necessariamente. Os modelos de negócio, os esquemas de preços, a forma como o valor entregue é comunicado — tudo isso continua operando sob uma lógica anterior. E, quando essa lacuna se torna visível, quando o cliente compara, pergunta e decide, a conversa deixa de ser interna e passa a ser uma conversa sobre competitividade.

Não ter uma estratégia também é uma estratégia. Só que quem está escolhendo são os outros.

No ano passado, o debate era se deveria haver uma estratégia de IA. As firmas com estratégia tinham o dobro de probabilidade de crescer. Esse debate terminou. O que os dados de 2026 mostram é uma mudança de registro: a pergunta-chave agora é se a estratégia está sendo executada. E o custo de não fazê-lo é mensurável, é imediato e está se acumulando em exposição regulatória, fuga de talentos e perda de receita de clientes.

O maior erro hoje é avançar lentamente e esperar que o comportamento do mercado vá aguardar. A IA é o presente do trabalho jurídico na América Latina. E hoje, cada semana sem uma estratégia executada é uma semana em que alguém mais tira vantagem. Uma vantagem que depois vai custar muito para ser revertida.

(*) Vice-presidente de Legal Professionals LatAm da Thomson Reuters

 

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