No Brasil, apesar de nossas urnas eletrônicas permanecerem desconectadas da Internet, o que impede invasões diretas, o verdadeiro problema é outro: a tentativa de destruir a confiança no sistema eleitoral. Em 2026, teremos a eleição mais tecnológica da nossa história, o que significa também a mais suscetível a ataques coordenados de desinformação.
Marcelo Branquinho (*)
Poucas vezes vi um cenário tão preocupante quanto o que se desenha para as eleições de 2026 no Brasil e no mundo. Teremos um ano eleitoral globalmente intenso – Brasil, Estados Unidos e possivelmente Reino Unido irão às urnas – mas também teremos o uso mais amplo, barato e poderoso da Inteligência Artificial (IA) já registrado em disputas políticas. E é exatamente essa combinação que transforma 2026 em um ponto de inflexão para a democracia.
No ambiente eleitoral, a desinformação não precisa convencer ninguém de que é verdadeira – basta gerar confusão. A intenção é abalar a racionalidade do eleitor, distorcer prioridades e manipular percepções. Com a IA, isso acontece de forma muito mais sofisticada e em escala industrial.
Deepfakes podem colocar candidatos em vídeos dizendo coisas que jamais disseram. Bots automatizados microsegmentam mensagens com precisão cirúrgica, explorando medos individuais. Perfis falsos criam engajamento artificial, simulando apoio popular onde não há consenso. E tudo isso pode acontecer ao mesmo tempo, em múltiplas plataformas, com um custo quase zero.
O que vimos em Taiwan, em 2024, foi a prova definitiva de que a IA entrou de vez na geopolítica da manipulação eleitoral. Vídeos hiper-realistas circularam como se fossem autênticos, reproduzindo a voz e a imagem de candidatos com uma fidelidade quase irreconhecível até mesmo para especialistas.
As autoridades classificaram o episódio como interferência estrangeira e tinham razão. Ali, testemunhamos como uma tecnologia acessível pode influenciar a opinião pública, distorcer o debate democrático e gerar desconfiança generalizada no processo eleitoral. Taiwan foi, na prática, um laboratório do que pode ocorrer em qualquer democracia vulnerável à guerra da informação.
Destruição da confiança no sistema eleitoral
No Brasil, apesar de nossas urnas eletrônicas permanecerem desconectadas da Internet, o que impede invasões diretas, o verdadeiro problema é outro: a tentativa de destruir a confiança no sistema eleitoral. Em 2026, teremos a eleição mais tecnológica da nossa história, o que significa também a mais suscetível a ataques coordenados de desinformação.
Vozes podem ser falsificadas com poucos segundos de áudio; e-mails aparentemente impecáveis podem servir de porta de entrada para ataques; conteúdos manipulados podem viralizar antes mesmo de checarmos sua autenticidade.
Por isso insisto tanto na urgência de adotarmos ferramentas capazes de identificar padrões anômalos em tempo real, criar planos de contingência contra ataques automatizados e investir pesado na verificação de deepfakes. Democracias não podem reagir apenas após o estrago estar feito.
O TSE tem buscado se antecipar a esse cenário. A Resolução 23.732/2024, que regulamenta o uso de IA nas campanhas e proíbe explicitamente as deepfakes, foi um passo importante. A obrigação de informar quando há uso de IA, a limitação no emprego de robôs e a responsabilização das grandes plataformas pela remoção de conteúdos manipulados são medidas necessárias e bem-vindas.
Em 2026, será a primeira vez que uma eleição geral no Brasil ocorrerá sob essas regras e isso certamente terá impacto. A dimensão dele? Só o tempo dirá.
(*) CEO e fundador da TI Safe, empresa especializada em segurança cibernética para infraestruturas críticas.
