Enquanto parte da comunidade jurídica ainda debate riscos da IA, outros players captam bilhões para moldar um novo ecossistema legal, mais híbrido, interoperável e centrado em resultado. O setor deixou de ser exceção e passou a ocupar espaço de liderança na agenda de inovação global.
Danielle Serafino (*)
Por muito tempo, o setor jurídico foi percebido como inóspito à inovação. Regido por tradição, códigos e precedentes, resistia à entrada da lógica do capital de risco e aos mecanismos de escalabilidade típicos de outros mercados. Esse cenário, no entanto, mudou de forma irreversível.
O segmento de legaltechs, startups que aplicam tecnologia a serviços jurídicos, alcançou maturidade suficiente para atrair cifras bilionárias. Apenas no primeiro semestre de 2025, foram US$ 1,8 bilhão investidos globalmente no setor, um crescimento de 345% em relação ao mesmo período de 2024. Desde 2014, os aportes somam mais de US$ 19 bilhões, e o número de empresas supera 10 mil.
Esse novo ciclo é liderado, sobretudo, pela adoção acelerada de Inteligência Artificial Generativa. A Harvey, fundada em 2022, foi avaliada em US$ 5 bilhões em junho de 2025, após rodada de US$ 300 milhões, poucos meses depois de ser avaliada em US$ 3 bilhões. A Clio, por sua vez, adquiriu a vLex por US$ 1 bilhão no mesmo mês, reunindo software jurídico e uma das maiores bases de dados jurisprudenciais do mundo.
Esses movimentos evidenciam não apenas apetite por escala, mas um realinhamento estratégico do setor jurídico. Grandes editoras, firmas tradicionais e fornecedores de tecnologia disputam agora a construção de plataformas integradas de dados, automação e suporte à decisão legal. O modelo tradicional de prestação de serviços está sendo redesenhado.
O reposicionamento é também simbólico. Pela primeira vez, o Direito é tratado como vetor relevante na transformação digital global. A automação de tarefas jurídicas, a análise preditiva e os fluxos de trabalho baseados em IA não são mais futuro, são diferencial competitivo no presente.
Para os profissionais do setor, isso exige uma mudança de chave. Habilidades técnicas permanecem essenciais, mas são insuficientes diante de um mercado cada vez mais orientado por dados, produtividade e valor estratégico. Escritórios e departamentos jurídicos precisam revisar seus modelos, processos e competências para integrar tecnologia de forma eficiente e segura.
Enquanto parte da comunidade jurídica ainda debate riscos da IA, outros players captam bilhões para moldar um novo ecossistema legal, mais híbrido, interoperável e centrado em resultado. O setor deixou de ser exceção e passou a ocupar espaço de liderança na agenda de inovação global.
Não se trata mais de discutir se o Direito vai mudar. A questão é: quem estará preparado para acompanhá-lo?
(*) Advogada e sócia da Área de Inovação Jurídica do Opice Blum Advogados
