Dossiê das Big Techs denuncia atuação do crime organizado nas plataformas digitais

Daniela da Silva Scapin, ex-funcionária da Meta e uma das organizadoras do dossiê  (crédito da foto: Lorrana Penna)

Falta de regulação, segundo o documento, torna o país terreno fértil para deepfakes, desinformação e lavagem de dinheiro. Enquanto EUA e União Europeia avançam com regras rígidas, como o Digital Services Act, o Brasil segue atrasado, mantendo brechas que permitem ao crime organizado expandir suas operações no ambiente digital. 

O Projeto Brief e o Sleeping Giants lançaram a segunda edição do Dossiê das Big Techs, levantamento que revela como as gigantes da tecnologia se tornaram parte estrutural do ecossistema de golpes digitais no Brasil, dessa vez focando em estelionatos e fraudes online.

O documento alerta que se trata de um modelo de operação das empresas que permite a circulação, monetização e expansão de delitos cibernéticos, atingindo brasileiros e movimentando bilhões de reais em prejuízo para famílias e para o Estado, consolidando as Big Techs como parte da engrenagem do crime digital.

Segundo o dossiê, a pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em agosto deste ano, mostra que um em cada três brasileiros já foi vítima de algum golpe digital, e somente no último ano as perdas chegaram a R$ 111 bilhões.

Redes sociais e sistemas de anúncios online aparecem como os principais vetores de disseminação das fraudes, ao permitirem que criminosos adquiram alcance, segmentem vítimas e rodem publicidades falsas que só são removidas após terem gerado receita para as plataformas.

O documento também detalha uma transformação profunda no crime organizado brasileiro. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) deixaram de depender exclusivamente do tráfico e de crimes violentos e passaram a atuar como conglomerados digitais, lucrando bilhões com estelionatos eletrônicos, golpes via redes sociais e operações financeiras clandestinas.

Migração do crime para ambientes digitais

Dados reunidos pelo dossiê mostram que os crimes digitais cresceram 661% em São Paulo entre 2019 e 2022, e que os estelionatos eletrônicos avançaram ainda mais, com alta de 1.162%. No mesmo período, outras modalidades violentas e roubos caíram ou se mantiveram estáveis no mesmo período, um sintoma claro da migração do crime para ambientes digitais, que são mais lucrativos e de menor risco.

Em janeiro de 2019, havia 377 casos registrados; em dezembro de 2022, foram 11.311 em um único mês, um salto de quase 2.900%. O PCC e o CV chegaram a movimentar R$ 6 bilhões em fraudes digitais em um único ano, atuando com estrutura de empresa criminosa, e as duas facções colaborando inclusive entre si no ambiente digital.

O dossiê revela ainda que esses golpes só se tornaram um fenômeno de massa porque as plataformas permitem e monetizam campanhas fraudulentas antes de qualquer intervenção.

Documentos internos da Meta apontam que até 70% dos novos anunciantes na plataforma promoviam produtos ilegais, golpes ou conteúdos de baixíssima qualidade, enquanto a empresa faturou cerca de US$ 16 bilhões apenas em 2024 com anúncios fraudulentos. Esse valor equivale a cerca de 10% de toda a sua receita anual.

Pessoas em situação de vulnerabilidade 

“Esta é uma evidência de que a empresa reconhece suas próprias falhas, mas opta por não investir em prevenção, priorizando o lucro ainda que isso signifique explorar pessoas em situação de vulnerabilidade social e financeira”, afirma Daniela da Silva Scapin, ex-funcionária da Meta e uma das organizadoras do dossiê.

A profissional, que foi Gerente de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil, se desligou da Big Tech na época em que Mark Zuckerberg fez declarações sobre os novos termos da plataforma. Atualmente, trabalha para criar conscientização sobre danos que as plataformas digitais causam à sociedade e às pessoas.

Em paralelo, facções e quadrilhas se aproveitam dessas mesmas ferramentas — como publicidade segmentada, criação fácil de contas, baixa verificação e ausência de diligência mínima — para recrutar vítimas, drenar recursos e lavar dinheiro usando infraestruturas digitais pouco reguladas.

O Dossiê das Big Techs: Golpes e Fraudes também mostra que golpes baseados em Inteligência Artificial, incluindo deepfakes e anúncios falsos com autoridades, já impactam a saúde pública, criando desinformação sobre medicamentos.

O objetivo criminoso é duplo, pois, além de abordarem benefícios sociais e políticas públicas, atingem negativamente seus beneficiários. Uma amostra de como isso acontece foi a utilização de imagem do médico cancerologista e escritor Drauzio Varella em propaganda falsa, enganosa.

Avanços em outros países

O documento também traz referências internacionais sobre como outros países avançaram na criação de regras rígidas para conter golpes online. O Digital Services Act (DSA), ou Lei de Serviços Digitais, é uma regulação da União Europeia que obriga plataformas a prevenir e remover anúncios ilegais, sob risco de multas bilionárias. A Irlanda e outros países do Reino Unido exigem verificação prévia de anúncios financeiros. Esses modelos adotam uma lógica de prevenção, e não apenas remoção posterior.

As medidas garantem maior transparência e as responsabilidades explícitas das plataformas. O contraste evidencia que o Brasil permanece atrasado no enfrentamento regulatório às fraudes digitais. O território brasileiro vive uma epidemia de golpes, e a falta de regulamentação contribui diretamente para isso.

O lançamento do dossiê ocorre num momento em que o país discute modernizações regulatórias para plataformas digitais. A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que flexibilizou o antigo modelo de responsabilidade das Big Techs abre espaço para exigências maiores de cuidado e prevenção.

No apanhado de denúncias coletadas pelo Projeto Brief e pelo Sleeping Giants, enfatiza-se a falta de uma legislação robusta que obrigue plataformas e serviços digitais a implementar mecanismos eficazes de verificação, transparência e combate a fraudes.

“Enquanto esse vácuo permanece, o crime organizado continua explorando brechas e sistemas frágeis, seja nas redes sociais ou no sistema financeiro digital, para escalar fraudes, lavar recursos e expandir suas operações”, adverte Daniela Scapin.

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