Valdemiro Kreusch, CVO do Grupo ÉOS
Crescimento deu-se a partir da pandemia, com a disseminação de soluções específicas como Automação de Documentos, Gestão Eletrônica de Processos, Jurimetria e Inteligência Artificial
A transformação digital que impactou diversos setores da economia entre 2010 e 2020 passou quase despercebida pelo universo jurídico. Enquanto bancos se transformaram em fintechs, sites de compras viraram marketplaces e captaram milhões em rodadas de investimento, os escritórios de advocacia se mantiveram em suas estruturas tradicionais e analógicas, com baixa adesão à tecnologia.
A pandemia de Covid-19, porém, mudou esse cenário, forçando o setor a adotar ferramentas digitais e abrindo espaço para o crescimento acelerado das chamadas legaltechs, startups voltadas à modernização da prática jurídica.
Para Valdemiro Kreusch, CVO do Grupo ÉOS, o descompasso era evidente. “As startups de tecnologia decolaram naquela época, mas o mercado jurídico ficou completamente de fora. Isso aconteceu porque os consumidores dessa tecnologia — os escritórios — tinham baixíssima maturidade digital. Era muito pior antes da pandemia”, afirma.
Segundo ele, foi o contexto do isolamento social que obrigou os advogados a migrarem seus servidores para a nuvem, adotar plataformas como Zoom e repensarem toda a infraestrutura de trabalho. “A única forma de continuar operando era com tecnologia”, explica.
Startups antes focadas em outros segmentos passaram a mirar o jurídico, desenvolvendo soluções específicas como Automação de Documentos, Gestão Eletrônica de Processos, Jurimetria e Inteligência Artificial aplicada, dentre centenas de outras.
O número de legaltechs no Brasil cresceu cerca de 50% entre 2022 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Lawtechs e Legal Techs (AB2L), e atualmente ultrapassa 600 empresas ativas. Para se ter uma ideia do potencial de crescimento de investimentos no setor, apenas uma empresa captou R$ 126 milhões em 2024.
Modelo de Legal Operations
Além disso, um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que o modelo de Legal Operations vem ganhando força, sobretudo em grandes bancas e departamentos jurídicos corporativos. O foco está na eficiência operacional, controle de custos e uso estratégico da tecnologia — algo antes raro no perfil conservador do setor.
Valdemiro lembra que a disseminação da Inteligência Artificial também está acelerando essa transformação. Mais de 55% dos profissionais jurídicos brasileiros já utilizam ferramentas de IA Generativa em sua rotina, tanto para produção de conteúdo quanto para análise preditiva de decisões judiciais.
“Ainda há desafios: a regulação da OAB sobre publicidade e automação de serviços jurídicos impõe limites ao avanço das soluções mais ousadas, mas o movimento é irreversível. O que começou como uma resposta emergencial virou um ponto de virada. Hoje, o jurídico não só consome tecnologia, mas começa a gerar inovação”, complementa.
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