A nova Resolução nº 18/2025 do Banco Central, em vigor desde janeiro, vai além de uma exigência técnica: ela muda o patamar da gestão de dados no setor financeiro ao colocar a qualidade da informação como pilar explícito da gestão de riscos e da credibilidade institucional, responsabilizando diretamente os conselhos e as diretorias das instituições.
Bergson Lopes (*)
A nova Resolução nº 18/2025 do Banco Central, que entrou em vigor a partir de janeiro de 2026, traz um alerta importante para a regulação do sistema bancário, reforçando que a qualidade de dados não é um tema periférico, mas um pilar central da gestão de riscos e da credibilidade institucional.
O regulador reconhece, portanto, que dados sustentam decisões de crédito, modelos de risco, prevenção à fraude, relatórios regulatórios e iniciativas de Inteligência Artificial. Sendo assim, informações inconsistentes, incompletas ou mal estruturadas deixam de ser apenas um problema operacional e passam a representar risco direto à confiabilidade das instituições financeiras, que sempre foi um dos ativos mais relevantes deste setor.
Independentemente do nível de inovação tecnológica, a credibilidade de bancos e fintechs depende da capacidade de sustentar decisões, operações e compromissos regulatórios com informações confiáveis.
Nesse contexto, podemos trazer para esta discussão o quanto a busca por uma atuação data driven consolidou-se como um dos principais vetores de modernização. Dashboards, analytics e relatórios em tempo real passaram a ocupar espaço central nas decisões executivas, sinalizando uma aparente maturidade no uso de dados.
Porém, em muitas instituições, essa percepção não se sustenta quando se observa a qualidade dos dados que alimentam esses instrumentos. Dados duplicados, incompletos, inconsistentes ou desconectados do contexto de negócio continuam presentes e fragilizam a base sobre as quais decisões relevantes são tomadas.
Desalinhamento entre intenção e prática
Essa fragilidade expõe um desalinhamento importante entre intenção e prática. A adoção intensiva de tecnologia, por si só, não elimina problemas estruturais de qualidade da informação. Ao contrário, tende a evidenciá-los em casos mais graves.
Métricas distorcidas por duplicidades, análises comprometidas por dados incompletos e interpretações equivocadas por ausência de contexto demonstram que decisões seguem sendo influenciadas por experiência individual, intuição ou pressão do momento, ainda que envoltas em uma aparência analítica sofisticada. Quando a qualidade não é tratada como fundamento, a narrativa data driven perde consistência e, com ela, a confiança nos próprios resultados gerados.
Assim, o impacto desta nova resolução, que é estrutural, vai além da conformidade formal. Bancos e fintechs passam a ser avaliados pela capacidade de demonstrar que seus dados são confiáveis, completos, rastreáveis e aderentes aos processos de negócio que representam.
Para fintechs que cresceram impulsionadas por velocidade e escala, esse movimento acelera um processo inevitável de amadurecimento. A lógica de crescimento acelerado sem o fortalecimento da gestão de dados torna-se incompatível com um ambiente regulado, no qual qualidade da informação e credibilidade institucional caminham juntas.
Gestão contínua da qualidade
Mas, para que esse movimento seja sustentável, a qualidade de dados precisa estar apoiada em um Programa de Governança de Dados formalmente estruturado. A definição clara de papeis, critérios, responsabilidades e processos cria as condições para uma gestão contínua da qualidade.
Nesse contexto, a Resolução nº 18/2025 também reforça a necessidade de mecanismos formais de controle, como testes específicos de qualidade e relatórios periódicos, além de atribuir responsabilidade direta ao conselho de administração e à diretoria na aprovação, supervisão e evolução da política de qualidade das informações. A adequação plena às exigências regulatórias deve ocorrer até 31 de dezembro de 2026, o que impõe às instituições um horizonte curto de planejamento e execução.
No fim, a discussão deixa de ser se bancos e fintechs utilizam dados em suas decisões e passa a ser se esses dados são confiáveis o suficiente para sustentar decisões estratégicas, operações críticas e compromissos regulatórios. A credibilidade dessas instituições está, cada vez mais, associada à qualidade dos dados que sustentam suas decisões.
Tratar dados como ativos críticos, governados com critérios claros, qualidade mensurável e responsabilidades bem definidas, deixa de ser apenas uma resposta à regulação e se consolida como um fator estruturante de confiança no setor financeiro.
(*) Fundador e CEO da BLR DATA, vice-presidente da DAMA Brasil, especialista em Gestão e Governança de Dados e autor de dois livros sobre o tema.
