Crise com a pandemia não deve fazer empresas enfraquecerem estruturas de Compliance

Organizações não podem reduzir a capacidade de combater perdas, fraudes, corrupção e assédios, o que colocaria em risco a integridade dos negócios

Jefferson Kiyohara (*)

A pandemia do novo coronavírus afetou todas as empresas e suas respectivas áreas. Algumas desprevenidas, outras mais preparadas, o que vimos foi uma sequência de ações que ora contingenciaram alguns impactos ora abriram precedentes para situações que impactam na veia das organizações, como a fraude e a corrupção.

Chamando a atenção para os fatos mais críticos, pudemos constatar indicadores alarmantes durante os percalços desta crise. Num seminário virtual com a participação de 195 profissionais de Compliance, Gestão de Riscos, Auditoria e Controles Internos, foi preocupante saber que em metade dos casos as empresas enfraqueceram suas estruturas de Compliance, o que significa reduzir a capacidade de combater fraudes, corrupção e assédios nas organizações.

Outro dado que chamou a atenção está relacionado à adoção de monitoramento remoto em função da adesão ao home office: apenas 47% aderiram à prática. Sem o devido acompanhamento e controle de transações críticas como cadastro de terceiros, compras e pagamentos, e sem monitorar o que está sendo feito de longe, a empresa estará míope para os casos de ilicitudes. Podemos afirmar que esses dois fatores, juntos, potencializam os riscos de fraudes e perdas para as organizações, o que traria fragilidade à saúde financeira num momento em que muitas empresas já estão debilitadas.

Somando-se a essas brechas, apenas 30% fazem a avaliação do perfil ético de seus profissionais, o que é um índice de adesão muito baixo, e poderia auxiliar as empresas num momento em que muitos trabalham de forma remota, tendo o desafio de garantir a atuação de forma íntegra.

Também chama a atenção o fato de o mesmo percentual de empresas, apenas 30%, adotar a avaliação de riscos de terceiros com uma empresa especializada, que é uma opção a ser considerada em situações de maior complexidade, detalhamento, ou mesmo falta de experiência interna, principalmente se for considerado que atos indevidos de terceiros são o principal vetor para sanções por corrupção.

Comitê de crise

Apesar de a maioria das empresas ter implementado um comitê de crise durante a pandemia, 28% das empresas participantes desta amostra não tomaram essa atitude. Outro ponto que traz preocupações é o fato de, apesar de estarmos falando de uma nova realidade, um novo normal, apenas 20% dos participantes terem atualizado a matriz de riscos de Compliance.

Regimes de exceção em compras e pagamentos, ondas de doações, novas interações com agentes públicos trazem riscos que devem ser mapeados e monitorados pelas organizações. Há ainda novas políticas que foram desenvolvidas, mas sem o devido treinamento.

É nestes momentos de maior vulnerabilidade que é fundamental manter as ações de ética e Compliance. Esta não é a primeira e nem será a última crise. Um bom sinal é que a maioria, 53% dos respondentes, afirmaram que houve incremento do “tone of the top”. E temos os outros 50% que fortaleceram ou mantiveram as estruturas de Compliance.

Blindar os esforços dos últimos anos para a promoção da integridade dos negócios e de combate à corrupção é um investimento a ser feito neste momento, pois são estes pilares que sustentarão o futuro próspero que queremos criar.

(*) Diretor de Compliance na ICTS Protiviti, empresa especializada em soluções para Gestão de Riscos, Compliance, Auditoria Interna, Investigação, Proteção e Privacidade de Dados.

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