LGPD, compliance e cibersegurança: três temas que o jurídico deve tratar conjuntamente

O futuro aponta para um jurídico cada vez mais plural. Advogados que estão alinhados com tecnologia, segurança da informação e gestão de riscos deixam de ser apenas intérpretes da norma e passam a atuar como protagonistas da segurança institucional no ambiente digital. Essa é uma mudança que redefine o papel do Direito dentro das empresas.

Klaus Riffel (*)

A criação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) trouxe mudanças importantes na forma como as empresas brasileiras lidam com a informação. Até então, temas como compliance e cibersegurança estavam concentrados em áreas técnicas, muitas vezes distantes da estratégia jurídica. Com a LGPD, essa separação deixou de ser apenas uma questão organizacional e passou a representar riscos jurídicos, financeiros e reputacionais.

Ao transformar a proteção de dados em uma obrigação legal, a lei esclareceu que não existe privacidade sem segurança da informação, não há compliance efetivo sem governança tecnológica, e nem cibersegurança que sobreviva sem respaldo jurídico claro.

Desde então, o que se vê é uma mudança gradual, mas ainda incompleta, na atuação dos departamentos jurídicos. Com o aumento de ataques cibernéticos e constantes tentativas de golpes online, tratar LGPD, compliance e cibersegurança de forma isolada já não atende às exigências do mercado e do próprio Judiciário. A integração deixou de ser uma boa prática e passou a ser condição para a sobrevivência das organizações.

Segundo um relatório da IBM, o custo médio de um vazamento de dados ultrapassa US$ 4 milhões por incidente, com impactos que vão muito além de financeiros, como a paralisação de operações, perda de confiança de clientes e danos de reputação de longo prazo.

Ausência de medidas preventivas

No Brasil, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) vem ampliando sua atuação, enquanto o Judiciário passa a reconhecer com mais frequência a responsabilidade das empresas não apenas pelo vazamento em si, mas pela ausência de medidas preventivas.

pesquisa Digital Trust Insights 2025, da PwC, revelou que um terço das empresas brasileiras já registrou prejuízos de pelo menos US$ 1 milhão devido a ciberataques nos últimos três anos, e apenas 2% dessas organizações implementaram de forma completa estratégias de resiliência.

O jurídico precisa deixar de atuar apenas de forma reativa após incidentes, e assumir um papel central na estratégia da empresa, participando de decisões, questionando continuamente se a organização está seguindo as regras de acordo com a lei e se existem procedimentos, tecnologias e controles capazes de sustentar essa conformidade no dia a dia, e não apenas no papel.

A LGPD, por si só, não protege dados. Ela estabelece princípios, deveres e responsabilidades. Quem executa essa proteção são pessoas, processos e sistemas. Quando um certificado digital é mal gerenciado, quando um acesso não é monitorado ou quando não há rastreabilidade sobre quem manipulou determinada informação, o risco deixa de ser teórico e se torna concreto. E, nesses casos, compliance e cibersegurança falham juntos.

Outro ponto é a crescente judicialização de temas ligados à segurança da informação. Vazamentos, acessos indevidos e falhas em controles internos já não são discutidos apenas sob a ótica técnica, mas também como descumprimento de deveres legais. O resultado é um aumento de processos que exigem provas digitais fortes e registros confiáveis, elementos que dependem diretamente de infraestrutura tecnológica adequada. 

Decisões judiciais

De acordo com o relatório do Centro de Direito, Internet e Sociedade, o número de decisões judiciais que citam a LGPD passou de sete mil em 2023 para quase 16 mil em 2024, um aumento de mais de 120%.

Esse movimento exige uma mudança cultural dentro dos departamentos jurídicos. Não basta compreender a legislação; é preciso entender como a tecnologia opera. Saber como os dados são armazenados, quem tem acesso e como essas informações podem ser usadas como prova jurídica. O jurídico que ignora essa camada técnica corre o risco de tomar decisões baseadas em premissas frágeis.

O futuro aponta para um jurídico cada vez mais plural. Advogados que estão alinhados com tecnologia, segurança da informação e gestão de riscos deixam de ser apenas intérpretes da norma e passam a atuar como protagonistas da segurança institucional no ambiente digital. Essa é uma mudança que redefine o papel do Direito dentro das empresas.

Separar LGPD, compliance e cibersegurança hoje não é apenas ineficiente, é até mesmo perigoso. Em um mundo onde dados são ativos estratégicos, proteger informação, garantir conformidade e evitar possíveis riscos deixou de ser uma soma de esforços isolados. Tornou-se um único desafio, que o jurídico não pode mais enfrentar de forma fragmentada.

(*) Fundador e CEO da doc9

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